terça-feira, 28 de agosto de 2012

O imenso lápis vermelho


Por Fanny Abramovich*

Para Paulo Freire,verdadeiro mestre e estrela-guia.

Penso no meu depoimento. Escrever algumas páginas sobre o meu professor
inesquecível. Sinto cócegas, revejo cicatrizes. Reflito, recordo, seleciono. Faço recortes e colagens de fotografias que a memória atiça e traz à tona. Flashes e mais flashes pipocando. Rodopios.
Lembrei, revi, me revi em várias fases de minha vida escolar. Sorri com algumas recordações, me espantei com outras. Percebi que sabia o nome e visualizava a figura de todas as que me ensinaram no pré e no primário. No ginásio, já não afluíam tão facilmente. Muitos professores, de muitas matérias, de muitas escolas (mudei várias vezes de escola durante o meu período de aprendizagem regular. Em geral, por puro fastio e canseira). Figuras meio enevoadas, embaçadas, se misturando e se mesclando nas cirandas de cobranças.
Do normal e do cursinho, só alguns. E forçando muito a memória. A escola,
decididamente, já não era o eixo da minha vida. Da Faculdade de Pedagogia da USP recordo todos. Não com nome e sobrenome. Suas características marcantes ressurgiram com nitidez, sem sombras (provavelmente por terem sido poucos e as brigas muitas), nem sempre acompanhadas de elogios ou saudades. Honestamente, sem entusiasmo ,constatando que deixaram poucas marcas em mim. Também, eles não eram meu mundo.
Explicadores de visões de mundo. Tacanhas ou fragmentadas e reacionárias para minhas convicções políticas da época. E com pouca sustentação teórica na minha já alentada prática diária de professora, coordenadora, orientadora. Estimulantes para o atrito, para a polêmica ou invenção de jeitos de infernizar suas vidas. Verdade verdadeira, poucos somaram. Nesse período, minhas fontes de aprendizagem eram a política estudantil e partidária, os grupos de teatro, os festivais de cinema europeu, o trabalho exigente e cobrante, os namorados, as leituras infindas, as conferências sobre qualquer assunto embasbacando e questionando, a Biblioteca Municipal abrindo o mundo… Tudo muito mais fumegante e atiçador do que as medíocres e pretensiosas aulas do curso de Pedagogia.
Como eleger o inesquecível? O professor Roque Spencer Maciel de Barros,
reacionário respeitador das convicções alheias e que me ensinou a fazer estudos monográficos da obra de Rousseau na faculdade de Pedagogia?? Tia Arminda, que desde o pré-primário nunca esqueceu o dia dos meus anos e me telefonava alegremente para dar um beijo, durante décadas?? Dona Nicota, que me alfabetizou com o mesmo método e cartilha que tinha usado com meu pai, demonstrando cabalmente como era inquieta e buscante???
O professor Jofre, do ginásio, que me enlouqueceu com equações de segundo grau que nunca consegui entender a que vinham, pra que serviam e por que existiam??
Dona Eneida, a temida, que exigia teoremas na ponta da língua, incompreensíveis e causadores de colite pubertária??? O professor Benjamim, na escola normal, que insistia em que se desenhassem – na lousa – coqueiros e jangadas, árvores frondosas e ondas do mar, em plena São Paulo desvairada, jurando que era pedagógico??? A professora de Latim (de quem não lembro mais o nome) exigindo a cantilena do rosa, rosae, rosam e do qui, quae, quod… conosco ninguém pode… Ou o professor de Desenho Geométrico querendo o uso dominado dos compassos e transferidores, com tinta nanquim e caneta de pena, para resolver problemas que eu não fazia a menor ideia do que tratavam, provocando paralisia motora e mental simultânea e inconteste sujeira nas imaculadas blusas brancas do uniforme??
O professor Saraiva, de Geografia, no ginásio, por quem nutri uma paixão
avassaladora e definitiva e por quem desenhava mapas completos cobertos com raspa de lápis colorido embebido em algodão?? Amor que traí na série seguinte, suspirando pelo Lourenço, jovem e atlético monitor do laboratório de Ciências??? Alguns senhores completamente gagás, que falavam sobre o nada durante horas, cuspindo palavras – latu sensu – em nossas irritadas faces?? Dona Ary, do admissão, que tinha nome de homem e portava um bigodinho fino, mui estranho??? A fofoqueira dona Maria Alice, que ministrava Trabalhos Manuais e que queria saber da vida de alguns artistas de teatro e televisão que eu conhecia (mas não tanto quanto inventava para seu gáudio, espanto e profundo prazer…)??? O professor Messias, desfilando sempre com um espantoso e apertado paletó xadrez, ensinante do idioma anglo com pronúncia de Tatuí, que até hoje martela sofridamente em meus ouvidos??? Dizia silaba da mente e sem constrangimento algum: Ai si shi iesterdi… Juro, I never forget…
O professor Severo – nunca um nome foi mais justo –, crente de que a Estatística era a única medida pra exata e plena compreensão do universo e que oferecia anos ao seu lado, mandando tantas vezes pra dependência quantas julgasse necessárias, até que esse instrumento básico do conhecimento pedagógico fosse dominado??? (Sem ter sido nenhum somatório em nível nenhum.) Dona Carolina Bori, inteligente, eficiente, ampliando nossas inquietudes e fazendo mergulhar nos mistérios da Psicologia Dinâmica??? O professor Antônio Cândido, cujas aulas segui como ouvinte, com volúpia insaciável e total arrebatamento?? Dona Mariinha Werebe, convicta da certitude da orientação educacional e abridora pras leituras minuciosas e ideologicamente corretas, ampliando sempre o limite da sala de aula e nos fazendo andarilhar pelo universo da educação compromissada com a transformação do homem e do sistema??
Não, não foi nenhum deles. De alguns me lembro pela cordialidade, disponibilidade, de outros pela presença entusiasmada ou risonha. Outros me divertiram pela
incompetência e burrice espantosas. Alguns por ser capazes e amantes de seu ofício e estimuladores de um mergulho mais intenso e mexetivo na sua matéria. Registros afetivos, aplauditivos, afastativos. Traços da fisionomia, contornos não de todo claros, sublinhação de uma ou mais características. Com distanciamento ou muito afeto. De modo intenso ou com intensas e vividas saudades. De poucos, muitos, com imensa ternura e derramada amorosidade.
Para lembrar com as evocações nítidas dos sentimentos que me provocou e ter como parâmetro por décadas, elejo dona Linda. Assim, sem sobrenome. Será que as professoras das primeiras séries tinham sobrenome??? Ela foi minha professora no terceiro ano primário.
Fui sua aluna no Colégio Batista Brasileiro, em Perdizes, bairro de São Paulo, onde freqüentava o semi-internato. Lá, maravilhada com os belos bosques, com a magia do flanelógrafo, com a diversidade apetitosa e convidativa da cantina, com o galpão enorme destinado a jogar queimada, com a portinhola escondida na rua lateral por onde se entrava para as aulas, com a imponente e bela escadaria da frente, com a biblioteca vasta, as inúmeras saletas com piano, os cultos protestantes e seus hinos glorificadores, eu, menina judia, passeava por esse mundo durante todo o dia. Absolutamente fascinada!
Na classe mista, meninos e meninas impecavelmente uniformizados, limpos,
alvejantes, com toda a vastidão do material escolar facilmente encontrável (segundos para localizar o que a mestra exigia…), viviam experiências pedagógicas marcantes com dona Linda.
Pra mim, ela era uma mulher enorme, de tamanho descomunal, gordíssima, quase um gigante… Não sei se era bonita ou feia para os padrões da época. Guardo a imagem dum rosto severo e de cabelos enrolados num coque. Roupa neutra, sem originalidade embasbacante nem marca pessoal. Tão uniformizada quanto nós. Que idade teria??? Não faço ideia… Pra mim, era velha. Talvez fosse uma garota recém-formada… Brava, sem sorrisos, incapaz dum gesto carinhoso ou dum afago especial. Durona, mal-humorada, seca são os primeiros adjetivos que me ocorrem. Não me vem nenhuma imagem cálida, aconchegante, chamante.
Dona Linda enfatizava o aprendizado da dedo-duragem. Quando saía da classe, escolhia um dos alunos para ir ao quadro-negro, onde deveria marcar com todas as letras o nome de qualquer colega que piscasse ou se mexesse. E anotar quantas vezes esses atos atentatórios eram cometidos, contabilizando risquinhos e mais risquinhos. Registro absoluto da infração. Esse poder sobre toda a classe, por minutos que pareciam séculos, era conferido ao aluno como forma de apreço e consideração. Isto é, o bom estudante merecia controlar toda a classe, trair os amigos e até colocar os desafetos em dia. Tornava-se uma figura tão ameaçadora quanto a professora ausente. Claro, autoridade de plantão não pode ser contestada.
Tinha, obviamente, a verdade ao seu lado e o direito de fazer justiça e ser
participante da punição. Dona Linda não era muito versada em sentimentos de culpa.
Ela também possuía uma fé inabalável no processo de limpar a boca. Literalmente.
Ouvindo um palavrão (o que poderia se dizer na época e nesse espaço cristão??) ou algo considerado, por ela, como não pronunciável, imediatamente se munia de água e sabão para que o orador mudasse seu repertório verbal e retirasse tal vocábulo de sua boca…
Se não produzisse o efeito radical desejado, à água era somado algum remédio, líquido, pimenta ou condimento de sabor intolerável e a partir daí… silêncio ou gagueira. Sem meias medidas para o que lhe desagradasse. Rapidez na ação e certeza convicta das reações. Nenhuma dúvida ou questionamento sobre os possíveis efeitos colaterais…
O instrumento de trabalho favorito de dona Linda era um imenso lápis vermelho ,todo-poderoso, que sublinhava erros do ditado ou da cópia, anunciava desacertos nas respostas dos questionários, riscava soluções de problemas de aritmética, exigia repetição infinita de equívocos cometidos até a resposta única e certa ser incorporada… Vez ou outra, elogiava, mas sem muito entusiasmo nem eloqüência. Terrorífico!!! Passados tantos anos, ainda sinto calafrios com a lembrança desse lápis inclemente. Capaz de apontar para exercícios extras na hora do recreio, o dobro de lição de casa, ficar sozinho na imensa escola até terminar tudo, copiar vinte vezes a grafia correta de cada palavra escrita de modo errado e outras alternativas lúdicas e estimulantes para qualquer criança.
Fervorosa entusiasta da compreensão do desvio através da repetição sucessiva, propunha– não brandamente – que se escrevessem cem vezes, sem aspas e obviamente sem carbono (existiria na época?), juramentos como: “Nunca mais falarei quando não for perguntado”, “Nunca mais falarei um palavrão”, “Nunca mais assoprarei a resposta para o colega” e outras variações sobre o tema. As palavras certamente não seriam essas. Mas o espírito, sim. Solidariedade e espontaneidade não faziam parte dos compêndios pedagógicos nos quais se baseava dona Linda.
Muito menos fazia idéia de quando se forma a noção do nunca…
Seus lemas: Punição sempre! Na dúvida, vá ficar de castigo! Repetição de qualquer informação até sabê-la de cor, sem hesitações nem paradas indicativas de alguma incerteza.
Consideração para com os melhores alunos e expectativa de puxa-saquismo da parte deles. Risadas, só fora da classe. Isso, na época em que se dizia que a escola era risonha e franca… Seguramente, não com ela.
Dona Linda era uma sádica de plantão permanente. Sem disfarces nem nuances.
Sem atenuantes. As quatro horas de aula diárias com ela eram sufoco completo. Sem pausa para respirar, da entrada à saída. Vivia no medo permanente de uma reação momentânea sua, das possibilidades infinitas do depois. Pouco imaginativa, repetia os castigos. Comprazia-se em antecipar que eles viriam. Era só aguardar. Os alunos, em estado de taquicardia permanente.
Lembro mal as informações escolares que recebi de dona Linda (e eu era uma das melhores alunas da turma). Sei que tudo era decorado. Afluentes de cada margem do rio Amazonas, paradas em cada cidade de todas as linhas ferroviárias do Estado de São Paulo, nome de capitais de remotos e inlocalizáveis países, datas de momentos históricos ditos relevantes, máximo divisor comum, mínimo múltiplo comum, coletivos de substantivos…
Tudo fundamental e cristalino para a curiosidade duma garota de 9 anos de idade, vivendo na capital. Não me lembro de histórias comoventes (só as contadas pelo pastor Enéas Tognini nos cultos diários), de cantorias desvairadas, de brincadeiras descompromissadas, de gostosuras envolventes. Não havia surpresas, tenho certeza. Monótona e previsível rotina de cinco dias por semana durante todo um ano.
E as sabatinas??? Provocadoras de insônia precoce, de tensão muscular. Exasperação nervosa, pavor de não corresponder às expectativas. Muito pior, a chamada repentina para dar uma resposta breve, impessoal e correta ao tópico em questão. Em voz alta, de pé, perfilada ao lado da carteira. Sem direito a dúvidas nem hesitações. Tinha que ser igualzinho ao escrito no livro usado e no caderno ditado e copiado. Paralisia momentânea ,puxada na barra da saia e nas escorregadias meias soquete, suor frio e surto de mudez.
Lembro que, com ela, vivia a rigidez, a dureza, a cobrança permanente. E o
medo!!! Que toda a alegria da minha idade, do espaço encantado do colégio, só era vivida no recreio, nunquinha em sala de aula. Que a soltura dos jogos no bosque, no pátio se contrapunha à fila permanente da classe: para entrar, pra saudar quem quer que fosse, pra lhe dizer bom-dia, pra responder argüições, pra sair… Até para ir ao banheiro, só com autorização especial sua. Estado de continência e de alerta
permanente. Estilo militar à risca. Dona Linda me deixou a marca da déspota não-esclarecida. Daquelas que têm e detêm o poder pelo poder. Não como demonstração de experiência, de clareza, de levar a classe a efetivar uma proposta… Nada disso. A sua autoridade como demonstração permanente de força e de controle, mesmo quando estivesse distante da sala, dos alunos.
Um único critério e uma única regra do jogo: AQUI QUEM MANDA SOU EU, não importa se com ou sem razão, por que ou pra que… Vale mais meu berro do que uma discussão.
Vale mais meu lápis vermelho do que outro jeito de resolver o problema, mesmo que a resposta final esteja certa. Arrepiante!!
Eu adorava o Colégio Batista Brasileiro. Saí de lá quando terminei o primário e voltei, alguns anos depois, para concluir o normal. Qual não foi o meu espanto quando,numa manhã, dei de cara, num dos corredores, com uma mulher pequena, nem magra nem gorda, nem velha nem jovem, que me cumprimentou sorridente. Não tinha ideia de quem fosse. Era dona Linda, destituída do tamanho-do-medo. Foi aí que compreendi o que significava a proporção afetiva para a criança: os objetos, as pessoas, os lugares têm o tamanho da sua importância e significado interno e nunca a sua dimensão real, concreta,exata, objetiva.
Eu, menina judia, tive o meu primeiro contato com a onipresença e com a
onisciência através de dona Linda. Foi difícil ao pastor tentar me explicar esses atributos divinos de outra forma…
Quando comecei a dar aulas para crianças. Busquei vários caminhos. Quis
momentos divertidos, alegres, cheios de surpresas. Quis momentos organizados,concentrados, produtivos. Quis que vivessem, experimentassem, sentissem gostosuras e importâncias. Que se encantassem, que crescessem. Quis ter um relacionamento aberto,poroso, ser respeitada. Não sabia como, claro… Mas lá no fundinho intuía que não seria – jamais – pelas vias, atalhos e pontes de dona Linda. Com ela aprendi, claramente, como não queria ser. Nem remotamente. Pra nenhum aluno. Nunca. Foi meu modelo, meu paradigma.
Atenção!!! Cuidado!!! Olha o olho, o lápis vermelho, o berro de dona Linda. Quando escorregava, sabia por quê. Até a pele reagia. A garganta diminuía a intensidade do grito, o olhar se abrandava, o sorriso vinha e se transformava em sonora gargalhada. Funcionou. Fui cúmplice e não carrasca de meus alunos.
E como é bom, gostoso, encontrar nas madrugadas da vida os hoje adultos que foram meus alunos quando pequenos me olhando com olhos piscando como crianças, baita sorriso aberto, abração apertado e comovido e ainda certa cumplicidade no ar a me dizer: “Oi,Fannyzinha. E aí? Tudo bem??”. Suspiro aliviada. Contentona. Plena. Aprendi mesmo!!! Consegui não ser dona Linda. Amém!!!

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